sexta-feira, 30 de maio de 2014

O Príncipe e o Bêbado


XX –

NO PLANETA

HABITADO POR UM BÊBADO


 
O Príncipe foi andando
E chegou noutro planeta
Habitado por um bêbado,
Muito feio... um careta!
1
Foi uma visita curta,
Que lhe deu muita tristeza
Vendo o bêbado sentado
Em torno de uma mesa.
2
Em cima garrafas mil,
Empunhando a taça cheia,
Mais parecia um mendigo
Detido numa cadeia.
3
Quebra o silêncio o Príncipe:
- Que fazes nessa prisão?
- Bebo aqui o dia inteiro,
Respondeu-lhe o beberrão.
4
- Por que é que tanto bebes?
Por que estás tão triste assim,
Pergunta o Principezinho,
Se tu moras num jardim?!
5
-Eu bebo para esquecer,
Retruca-lhe o beberrão.
Este jardim não tem flores
Aqui elas não se dão.
6
-Sentes falta de uma “rosa”
E por isso bebes tanto?
Pergunta o Principezinho,
Com mais pena do que espanto.
7
- Bebo, sim, para esconder
A vergonha que hoje sinto;
Se disser que estou feliz,
Podes crer, é porque minto.
8
Volta a insistir o Príncipe:
- Vergonha? de que hás de ter?
E o bêbado respondeu:
- É vergonha de beber!
9
O Príncipe suspirou...
- Isso não é doença nova!
Podes parar de beber...
Já vês que ninguém te aprova.
10
O bêbado não gostou
Por que não lhe deu razão:
Quer beber cada vez mais,
Ter dos outros compaixão.
11
Mas o Príncipe afastou-se,
De nada mais quis saber.
E ficou mais calmo o bêbado,
Bebendo sem ninguém ver.
12
O Príncipe pôs-se a caminho...
E dizendo pra si mesmo:
- Quantas pessoas assim
Que passam a vida a esmo!
13
Grande parte, como o bêbado,
Vivem só para consumo
Não produzem, nem ajudam...
A vida inteira sem rumo!
14
E o Principezinho triste
Foi andando cabisbaixo
Por não poder fazer nada:
Se não quer, não me rebaixo.
 
FIM

Encontra o Rei vaidoso


XIX

ENCONTRA

O REI VAIDOSO

 
 
Já no segundo planeta,
O Príncipe suspirou:
- Enfim, só... livre do rei.
Mas pouco lhe adiantou:
 
2
- Chegou um admirador
Veio pra me visitar...
Pra conhecer minha casa
E as belezas do meu lar.

3
Era um notável vaidoso...
Vestia-se de mil cores;
Para ele todos os homens
Eram seus admiradores
 4
O Príncipe respondeu-lhe
- Bom dia. Tens um chapéu
Que é muito, muito, engraçado!
Prefiro cabeça ao léu!
 5
- Nada a ver, diz o vaidoso.
É só para agradecer
A todos que me saúdam
Quando chegam pra me ver.
 6
Infelizmente faz tempo
Que ninguém por aqui passa.
Gosto muito dumas palmas...
Bate com força, com raça.
 7
Quero ouvir as tuas palmas
Pra também te agradecer...
Bate as mãos uma na outra
Até que as sintas arder.
 8
O Príncipe bateu forte,
Com tamanha empolgação
Que o vaidoso até soltou
O chapéu de sua mão.
 9
Fez vênias com a cabeça
E pediu repetição.
Chapéu pra cima e pra baixo,
Explodindo de emoção.
 10
Que faço? pensava o Príncipe:
-Oh, meu Deus, o que é isto?
É vaidade ou é orgulho?
Vou dar o fora, está visto!
 11
Na hora da despedida,
Quis do Príncipe saber:
-Pra levar o teu chapéu
O que devo eu fazer?
 12
O vaidoso fez-se surdo...
Nunca ouve o que não quer;
Mas sempre ouve os elogios
Venham eles de quem vier.
 13
E virou-se para o Príncipe:
- Verdade que o povo diz,
Que és meu grande admirador?
Pois, fico muito feliz!
 14
O Príncipe retrucou:
- Admirar! Que quer dizer?
O vaidoso respondeu-lhe
Pelo seu modo de ver:
 15
- É tu me reconheceres
O mais belo entre as gentes,
Mais bem vestido e mais rico,
O rei dos inteligentes!
 16
Pensa um pouco mais o Príncipe
Pois não quer dar-lhe um desgosto:
- Claro que te admiro muito...
Não vejo aqui outro rosto!
 17
- Está bem, isso me basta.
Diz o vaidoso a sorrir.
E o Príncipe aproveitou,
Tratou logo de sair.
 18
E foi-se embora pensando:
-Cada um tem suas manhas,
Mas, de fato, este exagera:
São ridículas e estranhas!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Nomeado Ministro da JUSTIÇA

XVIII 

MINISTRO DA JUSTIÇA

 
 
O Príncipe bocejou
Não tinha mais que fazer:
- Acho que me vou embora
Antes do entardecer.
 2
 Mas o Rei interferiu:
- Não partas, é uma ordem.
Farei de ti um ministro...
E acabará a desordem.
 3
- Serei ministro de quê...
Se eu não vejo aqui ninguém?
- Oh! Ministro da Justiça.
- E irei julgar a quem?
 4
O Rei parou um instante:
- A ti mesmo irás julgar.
Verás que é o mais difícil...
Por isso, é vago o lugar.
 5
É fácil julgar os outros,
Apresentados às resmas;
Verdadeiras são aquelas
Que o fazem a si mesmas.
 6
Concordou com ele o Príncipe
Mas tentou se desculpar:
-Pra fazê-lo a mim mesmo
Não preciso aqui morar.
 7
O Rei, porém, retrocou:
-Aqui no planeta tem
Um velho rato malvado,
Que não deixa em paz ninguém!
 8
Condená-lo-ás à morte...
Não julgarás mais nenhum.
Depois, o perdoarás...
Porque aqui só temos um.
 9
E o jovem Príncipe riu:
- Eu daqui vou dar no pé.
Este Rei quer muita coisa...
E eu nem sei bem quem ele é.
 10
O Rei fez nova proposta:
- Eu te faço embaixador.
Serás o representante
Do meu País no exterior.
 11
A convite tão honroso
O Príncipe disse “não”:
- Eu não posso alimentar
Sonhos, vaidade... ilusão!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O pôr do sol cem vezes ao dia




XVII – UM PEDIDO

MUITO ESTRANHO


 
 
O Príncipe visitante
Pegou o fraco do rei
E fez-lhe um pedido estranho
Bem oposto a qualquer lei:
 
2
 
- Quero ver o pôr do sol
Umas cem vezes por dia,
Sem afastar a cadeira,
Pois assim sempre fazia.
 3
O rei reconsiderou:
- Se eu mandar meu general
Pular duma flor à outra,
Mando bem ou mando mal?
Ele não é borboleta.
É preciso exigir
Só o que pode ser feito
Pra que o sol me possa ouvir.
 5
Repara bem, ó meu súdito,
No meu poder invisível:
Eu não sou um idiota...
Só ordeno o que é possível.
 6
Presta atenção nesta máxima
E nunca a uses em vão:
Toda autoridade sábia
Se baseia na razão.
 7
Tenho direito a exigir
Obediência total,
Pois tudo o que determino,
Ou é bom ou menos mal.
 
8
O pôr-do-sol ? lembra o príncipe.
- Sim, diz, vou já exigi-lo.
Não é fácil, mas tu sabes,
Que será em grande estilo.
 9
Deixa ver o calendário,
Vou resolver logo agora:
Tem vaga para hoje à noite...
Comigo não há demora.
10 
Esperei a tarde inteira
E até alta madrugada,
Mas o sol nem deu as caras.
Esperei, mas não vi nada!
 11
Assim fazem os humanos,
Pensei com os meus botões :
Promessas e mais promessas
Que não passam de ilusões!
 

 

O REI ORGULHOSO e VALENTÃO


 

XVI – O REI

ORGULHOSO

 
 
Andava o Pequeno Príncipe
Desvendando um mundo novo,
Onde todo o asteroide
É pouco maior que um ovo.
 2
O primeiro era habitado
Por um rei muito orgulhoso,
Vestido de arminho e púrpura,
Sobre um trono majestoso.
-Um súdito, diz o rei
Ao notar o visitante.
- Aproxima-te de mim!
Isso, assim, é o bastante.
 4

Diz-lhe o Príncipe admirado:
- Se em tempo algum já me viu
Como pode conhecer-me?
O rei olhou... e sorriu.
 5
O Príncipe não sabia
Que para os reis dessa terra,
Todos os homens são súditos...
O rei governa...e não erra.
Era um monarca absoluto,
Mas também muito sensato,
Dava ordens razoáveis
Sem usar anonimato.
Se ordenar ao general
Que se transforme em gaivota,
Ele tem que obedecer,
Diz o rei, ou é idiota!
Virou-se, então, para o Príncipe:
-Já podes me interrogar.
Sou monarca universal
Mas gosto deste lugar.
- Também mandas nas estrelas?
Pergunta o Príncipe ao rei.
- Claro, logo respondeu,
Todas seguem minha lei:
 10
Obedecer ou morrer,
Não tem outra alternativa...
Disso sabe toda a gente
Que é do meu reino nativa.
 11
Duvidoso estava o Príncipe
Com tamanho orgulho seu;
Na hora de medir forças,
O primeiro que correu!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

DOR DA DESPEDIDA DO PEQUENO PRINCIPE

XV – A  DOR  

DA  DESPEDIDA

 
 
O Príncipe tenta dar
Uma justa explicação:
-O dever me faz partir
Mas fica o meu coração.
 
Logo a rosa o deixa em paz:
- És tão tolo quanto eu...
Podes tentar novo amor...
Para mim, basta-me o teu!
 
Leva contigo a redoma,
Pois bom jeito te fará
A aragem da noite é vida,
É o que dizem por cá.
 
O Principezinho tenta
Mostrar-se preocupado:
- Mas, os bichinhos à noite...
Tens que ter maior cuidado.
 
A flor logo respondeu:
-É preciso que eu suporte
Umas duas ou três larvas
Pra vir a ficar mais forte.
 
As borboletas chegando
Já nem eu me assustarei.
Dizem que são muito lindas...
Se são ou não, eu não sei.
 
Quanto aos bichinhos maiores,
Não tenho medo nenhum;
Se soltar as minhas garras,
Aposto, não fica um.
 
Mostrou-lhe ingenuamente
Que tinha também espinhos.
E, voltando à despedida,
Disse em meio a mil carinhos:
 
- Vai fazer logo o que queres,
Mas por favor não demores
A voltar pro meu convívio...
Vai, vai logo antes que chores.
 
A flor pediu muitas vezes
Pro Príncipe se afastar,
Pois não queria que visse
Ela também a chorar.
 
O abraço da despedida
Bem curtinho deve ser
Pra sobrar muito mais tempo
Pra hora de se rever.

 

 

O Pequeno Príncipe despede-se da sua flor


XIV – DESPEDINDO-SE

DA SUA FLOR

 
 
Não parou o jovem Príncipe,
Depois dos vulcões limpar;
Pegou a foice e machado
Disposto a continuar.
 
Foi a vez dos baobás
Entrarem no esquecimento...
Não ficou em pé nenhum,
Nem o último rebento!
 
Fê-lo com certa tristeza...
Não fariam falta um dia?
Na dúvida, pela flor...
Prosseguiu no que fazia.
 
E todos esses trabalhos,
Rotineiros e execráveis,
Pareceram bem ao Príncipe,
Sinceramente agradáveis!
 
A alegria durou pouco:
Quando no último dia
Foi regar a sua flor
Todo o corpo estremecia.
 
De chorar sentiu vontade...
Mas tinha que prosseguir;
Regou, pô-la na redoma,
E disse: - adeus, vou partir.
 
A rosa não respondeu.
- Adeus - disse-lhe outra vez,
Mas ela apenas tossiu...
 Nada disse e nada fez!
 
Tal ausência de censura
Deixa o Príncipe parado
Com a redoma nas mãos
E meio desnorteado.
 
A rosa quebra o silêncio:
- Se não és feliz comigo,
Não te vou prender aqui...
Nem tão pouco vou contigo.
 
 
Em breve tu voltarás,
Mais depressa do que pensas:
Teu coração é tão fraco....
E as saudades tão intensas.