sexta-feira, 28 de novembro de 2014

XXVI O PLANETA DO PRÍNCIPE


             XXVI 

      O PLANETA

DO PEQUENO PRÍNCIPE 


 

 

O geógrafo disse ao Príncipe:              

- Senta aqui nesta banqueta...

Como és bom explorador,

Descreve aqui teu planeta.

 2

Gostou das anotações

Do seu mais novo subalterno

Feitas minuciosamente

A lápis sobre o caderno:


-Um planeta bem pequeno,

Com um só embaixador,

Mas com dois vulcões ativos,

Um extinto... e uma flor.


- Nenhum valor tem a flor

Porque rápido fenece...

Tudo quanto é perecível

O geógrafo desconhece.


E logo lhe foi dizendo:

- As anotações trazidas,

Somente se confirmadas,

Serão, por fim, acolhidas.

 6

- Minha flor não é efêmera;

Perecível também não,

Esclarece logo o Príncipe

Com voz forte de emoção!

 7

Muito bem, diz o geógrafo:

- Os livros de geografia

Nunca dão informações

Do que morre ou se atrofia.


As montanhas não se mudam,

Os oceanos não morrem,

As estradas duram anos...

E os desertos não encolhem.

 9

E pra arrematar de vez,

Diz o geógrafo malvado:

-Fala de coisas eternas

E deixa as flores de lado.

10 

- Minha flor não é efêmera,

Jamais ela irá morrer,

Repete o Principezinho,

Eu nasci pra defender.

11 

Ela tem só quatro espinhos

E é órfã, vive sozinha...

Se pra ti ela é efêmera,

Para mim ela é rainha.

12 

Vou voltar pra junto dela...

Vou lhe dar o meu amor;

Vou fazê-la viver sempre...

E tu vais lhe dar valor!

fim

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

XXV O GEÓGRAFO DOS LIVROS ENORMES

XXV

O ESCRITOR

DE LIVROS ENORMES

  
Sexto planeta, o maior,
Lá havia um escritor
Muito velho e experiente
Mas sempre de mau humor.
 2
Escrever livros enormes,
Que fugissem ao normal,
Era seu maior prazer...
Não existir nada igual.
 3
Vendo o Príncipe chegar,
Exclamou o pessimista:
- Chegou outro explorador...
De onde vens, ó meu artista?
- Que livros são, diz-lhe o Príncipe
Tão grandes que não têm fim!
Prefiro livros mais leves...
Tens aí algum pra mim?
 5
- Sou geógrafo-escritor;
Especialista em mares,
Oceanos, rios, montanhas...
Vou em todos os lugares.
- Isso é muito interessante,
Verdadeira vocação.
- Mas agora, diz-lhe o Príncipe:
Preciso uma informação:
 7
- No teu imenso planeta
 Há também algum deserto?
- Vou rever primeiro os livros
Ver se tudo ali stá certo.
- Mas tu não és o geógrafo?
Diz-lhe o Príncipe, o normal
É saber tudo de cor
Quem é bom profissional!
 9
- É verdade, sou geógrafo,
Não mais um explorador.
Falta gente a trabalhar...
Não tenho nem revisor.
 10
Não compete a mim sozinho
Escrever e conferir
Onde tem praia ou deserto
Ou se tudo está por vir.
 11
Geógrafo que se preza
Não deixa o seu escritório,
Nem troca o essencial
Por tudo o que é acessório.
 12
Recebo os exploradores,
Compro-lhes todas as notas
Dos relatos das viagens,
Novos percursos e rotas.
 13
Se mentiras eu descubro
Ou falsas informações
Que me levem a errar
Eu mato aqueles ladrões.
14 
Num livro de geografia,
Um erro é coisa fatal;
Por mais pequeno que seja,
Leva à descrença total.  
 15
O explorador mentiroso
Não merece fé alguma...
Tenta empacotar três ruas
Quando tem somente uma!
 16
E finaliza o geógrafo:
 - Mentir é como beber.
Bêbado vê tudo em dobro...
Diz que sabe o que fazer!
 
fim 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

XXIV SEM LAMPIÕES

XXIV

DESCARTANDO OS LAMPIÕES

 
O Príncipe gostou muito
Do lampião e acendedor...
Mas logo pensou num meio
Muito menos amador:
 2
- Sabes? Conheço um sistema
Que te vai proporcionar
Muitas semanas de folga
P’ra poderes descansar.
Teu planeta é tão pequeno
Que poderás, com três passos,
Contorná-lo totalmente
Cedendo ao sol os espaços.
 4
Andarás bem lentamente
Mantendo-te atrás do sol;
P’ra manter a luz do dia
Pularás o arrebol.
 5
Seguindo o regulamento,
Farás o dia espaçoso...
Podes ser, ao mesmo tempo,
Fiel à lei... e preguiçoso!
 6
Retrucou o acendedor:
- Do que eu gosto mais na vida
É dormir a noite inteira!
Mas tentarei a saída.
 7
E vendo que dava certo
Aderiu à invenção:
O sol já raiou. Bom dia ...
E apagou o lampião!
 8
O Príncipe bateu palmas:
- Gostei deste acendedor!
Não se preocupa com ele...
O que faz é por amor!
 9
Por ele até gostaria
De ir e de voltar depois...
Mas o planeta é pequeno,
Não há lugar para dois.
 10
Esqueceu, então, o Príncipe
Do pôr do sol aos milhares,
A cada dia que passa,
Para espanto dos olhares!
 11
Mas seu destino era a terra,
Onde estava a sua flor
Querendo ser cativada...
E lhe dar todo o amor!

sábado, 7 de junho de 2014

O Acendedor de LAMPIÕES

XXIII – O ACENDEDOR

DE LAMPIÕES

 
Era muito curioso
Aquele quinto planeta,
Também o menor de todos,
Onde a noite era mais preta.
2
Mal o Príncipe chegou,
Ao seu lado viu um homem
Com uma cana comprida
Repousada no abdômen!
3
Para iluminar à noite
Era um único lampião,
Imponente, alto e belo,
Mas bem cravado no chão.
4
Não conseguiu entender,
Se por lucro, ou prejuízo,
Num planeta tão pequeno,
Tudo isso era preciso.
5
- Bom dia, meu caro amigo,
O que fazes por aqui?
Diz o Príncipe aquele homem,
E que carregas aí?
6
- Acendo, apago, o lampião,
Cada noite, cada dia,
Com este acendedor mágico
Da nova tecnologia.
7
Pensou o Principezinho:
-Talvez seja mais um tolo;
Mas é bem menos que o rei:
Tem no trabalho o consolo.
8
Bem menos tolo também
Que o vaidoso assumido,
O beberrão e empresário.
Seu trabalho tem sentido.
9
Quando ele acende o lampião,
Nasce no céu uma estrela!
E também quando o apaga,
Não é possível mais vê-la!
10
O acender, e o apagar,
São agora, para mim,
O nascer e o adormecer
Da rosa do meu jardim.
11
Não mais o pequeno Príncipe
Pensou que tolo seria
Quem tem tão belo trabalho
De fazer da noite dia.
12
Mas pediu explicação:
- Por que apagaste o lampião?
Diz-lhe o homem: - É de lei
“Noite, aceso; dia, não”!
13
Curioso o jovem Príncipe,
Não sossegou um momento,
Fez-lhe mais uma pergunta:
- Que é lei ou regulamento?
14
O homem logo lhe responde:
-Não sei, não, o que isso é.
A mim somente compete
Fazer com amor e fé.
15
Acrescenta o nobre Príncipe,
Desejoso de saber:
- Qual a tua profissão,
Pra que possa compreender?
16
- Acendedor de lampiões!
Não é para compreender,
Respondeu pausadamente,
Basta só obedecer.
 17
E enxuga o suor da testa
Num lenço muito surrado,
Em que mal se via a cor
De um losango avermelhado:
18
- O que hoje faço é terrível,
Diz ele, em tempos passados
Toda a noite eram acesos
E de manhã apagados.
19
Descansava o dia inteiro,
Tinha a noite pra dormir.
- Mudou o regulamento?
Diz-lhe o Príncipe a sorrir.
20
- Não, diz o acendedor,
O planeta, a cada ano,
Gira muito mais depressa
E me causa grande dano!
21
Agora dá uma volta
Cada minuto que passa;
Não tenho mais um segundo
Pra que novo dia nasça!
22
Mal acendo, logo apago,
Dias duram um minuto;
Repara! Já faz um mês!
Não tem trabalho mais bruto!
23
Trinta minutos passaram...
Pela minha conclusão,
Trinta dias se passaram!
Vou acender o lampião.
24
Boa noite, vai deitar...
Tens que te levantar cedo.
-Boa noite, respondi,
Usando um tom meio azedo.
 25
Virou me as costas, sumiu...
Nem acendeu o lampião!
Quem tem pouco que fazer
Pouco tem de educação!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Príncipe PROVOCA o Empresário


XXII

O PRINCIPE

PROVOCA O EMPRESÁRIO

 
 
Diz–lhe o Príncipe: que contas
São essas tão complicadas
Olhando o céu toda a noite
E as estrelas apagadas?
2
O empresário não gostou
De ser chamado à atenção;
Mostrou uma cara feia
Mas usou de educação:
3
- Conto tudo o que reluz
Noite e dia lá no céu...
Tem muita coisa escondida
E muito pouca ao léu.
O Príncipe retrucou-lhe:
- São vaga-lumes ou moscas?
Isso que vês lá nos céus
Mais parecem folhas toscas.
5
- Nada disso. São estrelas,
Respondeu-lhe o empresário,
Já foram catalogadas
Nas folhas do meu diário.
6
Eu possuo cada uma.
Elas sabem: sou seu rei.
Conhecem bem o meu nome,
Mas o delas eu não sei.
7
O Príncipe discordou;
Nenhum rei possui alguém.
Não mandam sequer nos súditos,
Nem são donos de ninguém.
8
- E as estrelas pra que prestam
Tão distantes nas alturas?
Se não podes chegar perto
Nem penses em aventuras.
9
O empresário respondeu-lhe:
- Servem pra me tornar rico...
Por cada uma que eu acho,
Mais poderoso eu fico.
 10
Se alguém acha um diamante,
Que não pertença a ninguém,
Ele passa a ser o dono...
Passa a ter mais esse bem.
11
Se descubro uma estrela,
É minha em potencial;
Se ninguém a registrar
Tenho o domínio é total.
 12
Administro uma a uma
Conto-as todas as manhãs,
Ao fim do dia reconto...
Todas viram minhas fãs!
13
Vendo, o Príncipe, a ilusão,
Pôs-se logo a argumentar:
- E pra quê que servem elas?
Já alguém tas quis comprar?
14
- Não. Responde o empresário,
Mas coloco-as no armário,
Preencho um papel-depósito
E dou baixa no diário.
15
Pensou o Principezinho:
- Não lhe vejo utilidade;
É divertido e patético...
Sinal de senilidade.
16
Pois eu tenho uma flor,
Mas rego-a todos os dias;
Tenho também três vulcões
Que são minhas alegrias.
17
Mas sou útil aos vulcões,
Sou útil à minha flor;
E eles também são pra mim...
Tratamo-nos com amor.
18
Está na hora de ir embora,
De sair deste planeta
Dar adeus ao empresário
E arrumar minha maleta.
19
O Príncipe e o empresário
Tocam mútuas despedidas:
Palavras de gratidão
Foram as mais repetidas.
20
E o Príncipe foi andando
E cantarolando assim:
Só conta estrelas na terra
Quem desconhece o seu fim!

 

terça-feira, 3 de junho de 2014

NO QUARTO PLANETA


XXI – No quarto planeta


 

 Ali no quarto planeta
Parece não ter ninguém!
O Príncipe, então, pergunta:
- Por aqui existe alguém?
 2
Ouviu-se uma voz distante...
Alguém contava dinheiro!
Seguiu nessa direção...
Caminhou o dia inteiro!
Encontrou um empresário:
- Boa noite, meu amigo,
O que faz tão ocupado?
Pare lá, fale comigo.
 4
- Não me interrompas, gritou.
Eu estou muito ocupado:
São milhões para contar...
E aponta o céu estrelado!
 5
- O teu cigarro apagou...
Será que não reparaste?
- diz-lhe o Príncipe, cuidado...
Podes ter maior desgaste.
 6
- Eu tenho muito trabalho
E sou um sujeito sério;
Não olho a futilidades...
Minha vida é um mistério.
 7
O empresário continua
Apontando as estrelas:
-Há cinquenta e quatro anos
Contando sem poder vê-las!
 8
Recomecei duas vezes ...
Cometi erros na soma:
Uma vez foi um besouro...
Apanhou, está em coma.
 9
A outra vez foi bem pior,
Foi crise de reumatismo!
Começar tudo de novo...
Foi pra mim puro heroísmo.
 10
Agora chegaste tu,
Não penses que vou parar;
Sou empresário sério...
Passo a vida a trabalhar!
 11
E continuou contando:
Um milhão, mais um trilhão,
Dá uma soma brutal...
Mas mais é minha ambição!
 12
Depois, para e, firme, ordena
Virando-se para trás:
-Vê se me dás um tempinho
E aqui me deixas em paz!