sábado, 7 de junho de 2014

O Acendedor de LAMPIÕES

XXIII – O ACENDEDOR

DE LAMPIÕES

 
Era muito curioso
Aquele quinto planeta,
Também o menor de todos,
Onde a noite era mais preta.
2
Mal o Príncipe chegou,
Ao seu lado viu um homem
Com uma cana comprida
Repousada no abdômen!
3
Para iluminar à noite
Era um único lampião,
Imponente, alto e belo,
Mas bem cravado no chão.
4
Não conseguiu entender,
Se por lucro, ou prejuízo,
Num planeta tão pequeno,
Tudo isso era preciso.
5
- Bom dia, meu caro amigo,
O que fazes por aqui?
Diz o Príncipe aquele homem,
E que carregas aí?
6
- Acendo, apago, o lampião,
Cada noite, cada dia,
Com este acendedor mágico
Da nova tecnologia.
7
Pensou o Principezinho:
-Talvez seja mais um tolo;
Mas é bem menos que o rei:
Tem no trabalho o consolo.
8
Bem menos tolo também
Que o vaidoso assumido,
O beberrão e empresário.
Seu trabalho tem sentido.
9
Quando ele acende o lampião,
Nasce no céu uma estrela!
E também quando o apaga,
Não é possível mais vê-la!
10
O acender, e o apagar,
São agora, para mim,
O nascer e o adormecer
Da rosa do meu jardim.
11
Não mais o pequeno Príncipe
Pensou que tolo seria
Quem tem tão belo trabalho
De fazer da noite dia.
12
Mas pediu explicação:
- Por que apagaste o lampião?
Diz-lhe o homem: - É de lei
“Noite, aceso; dia, não”!
13
Curioso o jovem Príncipe,
Não sossegou um momento,
Fez-lhe mais uma pergunta:
- Que é lei ou regulamento?
14
O homem logo lhe responde:
-Não sei, não, o que isso é.
A mim somente compete
Fazer com amor e fé.
15
Acrescenta o nobre Príncipe,
Desejoso de saber:
- Qual a tua profissão,
Pra que possa compreender?
16
- Acendedor de lampiões!
Não é para compreender,
Respondeu pausadamente,
Basta só obedecer.
 17
E enxuga o suor da testa
Num lenço muito surrado,
Em que mal se via a cor
De um losango avermelhado:
18
- O que hoje faço é terrível,
Diz ele, em tempos passados
Toda a noite eram acesos
E de manhã apagados.
19
Descansava o dia inteiro,
Tinha a noite pra dormir.
- Mudou o regulamento?
Diz-lhe o Príncipe a sorrir.
20
- Não, diz o acendedor,
O planeta, a cada ano,
Gira muito mais depressa
E me causa grande dano!
21
Agora dá uma volta
Cada minuto que passa;
Não tenho mais um segundo
Pra que novo dia nasça!
22
Mal acendo, logo apago,
Dias duram um minuto;
Repara! Já faz um mês!
Não tem trabalho mais bruto!
23
Trinta minutos passaram...
Pela minha conclusão,
Trinta dias se passaram!
Vou acender o lampião.
24
Boa noite, vai deitar...
Tens que te levantar cedo.
-Boa noite, respondi,
Usando um tom meio azedo.
 25
Virou me as costas, sumiu...
Nem acendeu o lampião!
Quem tem pouco que fazer
Pouco tem de educação!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Príncipe PROVOCA o Empresário


XXII

O PRINCIPE

PROVOCA O EMPRESÁRIO

 
 
Diz–lhe o Príncipe: que contas
São essas tão complicadas
Olhando o céu toda a noite
E as estrelas apagadas?
2
O empresário não gostou
De ser chamado à atenção;
Mostrou uma cara feia
Mas usou de educação:
3
- Conto tudo o que reluz
Noite e dia lá no céu...
Tem muita coisa escondida
E muito pouca ao léu.
O Príncipe retrucou-lhe:
- São vaga-lumes ou moscas?
Isso que vês lá nos céus
Mais parecem folhas toscas.
5
- Nada disso. São estrelas,
Respondeu-lhe o empresário,
Já foram catalogadas
Nas folhas do meu diário.
6
Eu possuo cada uma.
Elas sabem: sou seu rei.
Conhecem bem o meu nome,
Mas o delas eu não sei.
7
O Príncipe discordou;
Nenhum rei possui alguém.
Não mandam sequer nos súditos,
Nem são donos de ninguém.
8
- E as estrelas pra que prestam
Tão distantes nas alturas?
Se não podes chegar perto
Nem penses em aventuras.
9
O empresário respondeu-lhe:
- Servem pra me tornar rico...
Por cada uma que eu acho,
Mais poderoso eu fico.
 10
Se alguém acha um diamante,
Que não pertença a ninguém,
Ele passa a ser o dono...
Passa a ter mais esse bem.
11
Se descubro uma estrela,
É minha em potencial;
Se ninguém a registrar
Tenho o domínio é total.
 12
Administro uma a uma
Conto-as todas as manhãs,
Ao fim do dia reconto...
Todas viram minhas fãs!
13
Vendo, o Príncipe, a ilusão,
Pôs-se logo a argumentar:
- E pra quê que servem elas?
Já alguém tas quis comprar?
14
- Não. Responde o empresário,
Mas coloco-as no armário,
Preencho um papel-depósito
E dou baixa no diário.
15
Pensou o Principezinho:
- Não lhe vejo utilidade;
É divertido e patético...
Sinal de senilidade.
16
Pois eu tenho uma flor,
Mas rego-a todos os dias;
Tenho também três vulcões
Que são minhas alegrias.
17
Mas sou útil aos vulcões,
Sou útil à minha flor;
E eles também são pra mim...
Tratamo-nos com amor.
18
Está na hora de ir embora,
De sair deste planeta
Dar adeus ao empresário
E arrumar minha maleta.
19
O Príncipe e o empresário
Tocam mútuas despedidas:
Palavras de gratidão
Foram as mais repetidas.
20
E o Príncipe foi andando
E cantarolando assim:
Só conta estrelas na terra
Quem desconhece o seu fim!

 

terça-feira, 3 de junho de 2014

NO QUARTO PLANETA


XXI – No quarto planeta


 

 Ali no quarto planeta
Parece não ter ninguém!
O Príncipe, então, pergunta:
- Por aqui existe alguém?
 2
Ouviu-se uma voz distante...
Alguém contava dinheiro!
Seguiu nessa direção...
Caminhou o dia inteiro!
Encontrou um empresário:
- Boa noite, meu amigo,
O que faz tão ocupado?
Pare lá, fale comigo.
 4
- Não me interrompas, gritou.
Eu estou muito ocupado:
São milhões para contar...
E aponta o céu estrelado!
 5
- O teu cigarro apagou...
Será que não reparaste?
- diz-lhe o Príncipe, cuidado...
Podes ter maior desgaste.
 6
- Eu tenho muito trabalho
E sou um sujeito sério;
Não olho a futilidades...
Minha vida é um mistério.
 7
O empresário continua
Apontando as estrelas:
-Há cinquenta e quatro anos
Contando sem poder vê-las!
 8
Recomecei duas vezes ...
Cometi erros na soma:
Uma vez foi um besouro...
Apanhou, está em coma.
 9
A outra vez foi bem pior,
Foi crise de reumatismo!
Começar tudo de novo...
Foi pra mim puro heroísmo.
 10
Agora chegaste tu,
Não penses que vou parar;
Sou empresário sério...
Passo a vida a trabalhar!
 11
E continuou contando:
Um milhão, mais um trilhão,
Dá uma soma brutal...
Mas mais é minha ambição!
 12
Depois, para e, firme, ordena
Virando-se para trás:
-Vê se me dás um tempinho
E aqui me deixas em paz!